Residindo em Cananéia, Battisti está a poucos dias de receber decisão da Justiça sobre eventual extradição


Residindo em Cananéia, Battisti está a poucos dias de receber decisão da Justiça sobre eventual extradição

Italiano foi condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos cometidos no final da década de 1970

22/10/2017 - 01:11 hs

Sob um retrato de Karl Marx preso à parede, o ex-militante de extrema-esquerda Cesare Battisti, entrevistado pela AFP perto de São Paulo, afirma que "a tensão é grande" a poucos dias da decisão da Justiça sobre sua eventual extradição para a Itália.
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Observando pelo canto do olho seu filho Raul, de quatro anos, que corre ao redor, parece profundamente marcado pelos quase 40 anos de uma fuga praticamente permanente. Condenado à prisão perpétua na Itália por quatro assassinatos cometidos no final da década de 1970, Battisti sempre clamou sua inocência e afirma ser vítima de uma perseguição política.
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"Se o meu processo fosse baseado apenas nos aspectos legais, eu não estaria nesta situação", estima o italiano de 62 anos, falando em um português intercalado com algumas palavras em francês, na casa de um amigo que o aloja em Cananéia (litoral de São Paulo).
Sua voz é pausada, e seus olhos mostram um certo cansaço. Ele diz que aguarda a decisão da Justiça que selará seu destino em meio a uma "grande tensão".
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No Brasil desde 2004, depois de ter passado cerca de quinze anos na França, vive sob a ameaça de muitos pedidos de extradição da Itália.
No final de 2010, Roma recebeu a recusa categórica do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que decidiu não entregar Battisti em um decreto aprovado no último dia do seu mandato.
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Guernica e Che Guevara

Mas o vento pode ter mudado de direção com o atual presidente Michel Temer, mais inclinado a responder positivamente às demandas italianas.
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"Uma lei estipula que este decreto não pode ser anulado após um período de cinco anos. E, além disso, há uma questão ética", argumenta o ex-membro dos Proletários armados pelo comunismo.
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Na sala de estar da casa, o retrato de Karl Marx divide o espaço com outro de Che Guevara, uma bandeira da Palestina e uma reprodução de Guernica, a famosa pintura de Pablo Picasso.
"Não tenho certeza que Temer fará isso (extraditá-lo). Surpreenderia-me que um presidente pudesse revogar o decreto de um de seus antecessores", insiste.
Battisti espera a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que deve decidir o seu caso em Brasília a partir de terça-feira: a extradição de Battisti seria legal ou não?
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Sua companheira Priscila, uma professora de 31 anos e mãe do pequeno Raul, olha para ele com preocupação. Um sentimento que a agita há mais de duas semanas, quando soube que o italiano tinha sido preso na fronteira boliviana.
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Ele viajava com dois amigos e as autoridades consideraram que transportava uma quantidade de dinheiro superior à permitida pelas autoridades alfandegárias.
Um juiz o colocou em prisão preventiva, considerando que Battisti poderia tentar fugir do Brasil, mas seus advogados conseguiram sua libertação alguns dias depois.
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"Foi um sequestro organizado que não funcionou, caso contrário, eu já estaria em um avião militar. Há meses que foi preparado, com grandes meios %u200B%u200Be o apoio da Itália", acusa.
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Torcedor do Corinthians

Este incidente, que ocorreu quando, segundo ele, atravessava a fronteira boliviana para comprar equipamento de pesca, provocou uma nova tempestade na imprensa, que lhe tirou a paz que tanto apreciava em Cananéia, cidade de 12.000 habitantes.
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Os vizinhos ainda recordam os boatos de alguns anos atrás sobre a chegada de um certo fugitivo italiano que poderia, segundo a lenda, ter sua casa destruída por um misterioso comando estrangeiro.
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O comando nunca chegou e as pessoas o veem mais como um cara normal que gosta de saborear uma garrafa de vinho à beira-mar, vestindo a camisa do Corinthians.
"Eu sinto que eu nasci aqui", sorri Battisti.
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Mas, a mais de 10.000 km de distância, Roma continua determinada a garantir a extradição da encarnação viva dos "anos de chumbo".
"Eu sempre disse que sou culpado de ter participado de um grupo armado e de ter me posicionado contra um Estado fascista, mafioso e ladrão. Mas os crimes pelos quais fui condenado, eles devem apresentar provas", afirma, sem pestanejar.
"A única coisa que me incomoda um pouco é a dor causada à minha família", acrescenta o italiano, lembrando que deixou duas filhas na França.
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Ainda assim, não se arrepende. "A luta deve ser travada para melhorar as condições de vida do povo, dos pobres, daqueles que não têm acesso à riqueza do mundo", conclui.
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Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br