Exclusivo: Mulheres vítimas de Violência Doméstica contam como sobreviveram

Dados da Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência revela que, no ano de 2018, foram registradas 92.323 denúncias pelo Disque 180.

Por Redação 31/10/2019 - 20:00 hs
Foto: Reprodução

 

Feminicídio é um termo de crime de ódio baseado no gênero,  amplamente definido como o assassinato de mulheres. O conceito foi criado para caracterizar as diferentes modalidades de violência que representam risco de morte imediata ou potencial para elas, entende-se que as mortes não são casos isolados ou episódicos.

As mortes violentas por razões de gênero são uma fenômeno global e vitimizam mulheres todos os dias. O Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de Feminicídio, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas pra os Direitos Humanos (ACNUDH).

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Segundo levantamento do Portal de Notícias G1, com base em dados oficiais dos 26 estados e do Distrito Federal, no ano de 2018 foram registrados 4.254 homicídios dolosos contra mulheres no Brasil.

Dados da Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência revela que, no ano de 2018, foram registradas 92.323 denúncias pelo Disque 180.

Em reportagem do Jornal O Estado de São Paulo, revela que em média, uma mulher é vítima de feminicídio a cada dois dias e meio no estado de São Paulo. Em 2018, 148 assassinatos foram registrados já no boletim de ocorrência como derivados de violência doméstica ou por menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

Segundo levantamento do Ministério da Justiça, a maioria dos crimes de feminicídio no Brasil foram cometidos por maridos e namorados das vítimas, que achavam ter motivos para mata-las e ameaçavam e agredia constantemente suas companheiras.

A partir de 2015, o Brasil alterou o Código Penal Brasileiro e incluiu a Lei 13.104, que tipifica o feminicídio como homicídio, reconhecendo o assassinato de uma mulher em função do gênero. Enquanto um homicídio simples tem pena de 6 a 20 anos, para o qualificado, que é onde entra o feminicídio, a punição é de 12 a 30 anos de prisão e pode ser aumentada de 1/3 a 1/2 em determinados casos.

A Lei n. 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, é o principal marco jurídico na defesa da mulher, pois tipifica as situações de violência doméstica. Ela inclui tanto as formas de violência física, como a doméstica (quando a agressão ocorre dentro de casa) e a psicológica, como calúnia, difamação ou injúria contra a honra ou a reputação da mulher. O agressor pode ter uma pena de uma até três anos de prisão.

Segundo as Nações Unidas, as motivações mais comuns dos agressores envolvem sentimento de posse sobre a mulher, o controle sobre o seu corpo, desejo e autonomia, limitação da sua emancipação (profissional, econômica, social ou intelectual) e desprezo e ódio por sua condição de gênero.

O Projeto “Patrulha Família Segura” surgiu em 2015 de forma pioneira na cidade de Registro, que garante à mulher, vítima de violência doméstica, o cumprimento da medida protetiva, mantendo o agressor afastado e preservando sua integridade física. Hoje, cerca de 528 famílias são assistidas pelo programa em todo o Vale do Ribeira. 

Assim que uma Medida Protetiva é deferida pelo Juiz na região, a Patrulha Família Segura é acionada e inicia o acompanhamento da vítima, além disso, o agressor é notificado pelos policias da patrulha sobre as medidas protetivas. É um tipo de policiamento que consiste em uma patrulha PM bigênero, ou seja, composta por um Policial Militar masculino e uma Policial Militar feminina, que faz constantes visitas às vítimas e aos núcleos familiares oprimidos pela violência doméstica.

A Polícia Militar de Registro iniciou uma nova ação de polícia preventiva que atua no combate à violência doméstica e familiar que vitimiza principalmente as mulheres, providência que, via de regra, determina o afastamento físico do agressor, a fim de assegurar à vítima ou família, o direito a uma vida sem violência.

Além disso, também são realizadas palestras nas cidades cobertas pela ação, como forma de prevenção e orientação sobre violência doméstica.

Muitas dessas famílias além dos problemas referentes à violência ainda sofrem com questões sociais, nesses casos, as famílias são encaminhadas à outros órgãos.  O Programa tem transformado a vida de inúmeras famílias, possibilitando terem uma vida normal e sem abusos.

Infelizmente, casos de violência doméstica e feminicídio acontecem no Vale do Ribeira. Maria*, é um exemplo, ela começou a sofrer violência quando começou a morar junto com o companheiro. Após uma denúncia anônima para a Delegacia de Defesa da Mulher da região, ela foi encontrada pela Patrulha Família Segura em situação de cárcere privado.

Entrevista

O ex-companheiro de Maria se mostrou agressivo 3 meses após começarem a morar juntos. De calmo, carinhoso e atencioso, o agressor passou a sentir um ciúme possessivo por ela. “Eu achava que era normal e que não iria acontecer mais. Não sabia o que estava acontecendo comigo, mas dentro de mim eu achava que ele ia mudar”, desabafa a vítima.

O medo começou a tomar conta de Maria, que chegou a ser agredida, cuspida e sofrer terror psicológico constantemente. “Quando ele me agredia, eu achava que ia ser só aquela vez, pensava “vai ser só hoje, não vai acontecer novamente”, aí depois ele vinha e fazia de novo e eu não tinha como reagir por causa do medo, temia muito pela minha filha”.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE 

O agressor costumava sair de casa e tinha variações de humor que refletia em Maria. “Demorou muito pra eu perceber que ele realmente estava sendo maldoso comigo. Precisei ser agredida duas vezes por ele”, conta.  As brigas por ciúmes eram constantes e ela era proibida de sair de casa sozinha, não podia trabalhar, nem visitar a mãe, buscar e levar a filha na escola, ou ir ao mercado, por exemplo. “Quando eu ia, ele dizia que eu estava atrás de macho e começava a brigar e me humilhar.”

Por causa do medo, Maria passou a ficar somente em casa e esquecer a vaidade, sua autoestima estava cada vez menor. “O ciúmes dele era tão grande que quebrava os espelhos da casa para eu não conseguir me arrumar”. Além disso, emagreceu por dormir diversas vezes com fome, pois ela e a filha não podiam jantar antes do agressor chegar em casa.

A vítima não conseguiu contar o que estava sofrendo. “Tentei sair de casa por 3 vezes, ele pegou minhas coisas e jogou tudo na rua, mas logo depois colocava todas de volta na casa. Uma das vezes ele me pegou no colo, me jogou na cama e me impediu”, conta Maria.

Ela passava dias sem sair de casa. “As pessoas comentavam que eu tinha sumido, mas na verdade eu estava presa! Ele brigava, me batia, ofendia e mexia muito com meu psicológico. Dizia que quando estava fora ficavam pessoas a vigiando e iria saber se eu saísse”, relata.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

Maria conta que quando avistava viaturas da polícia passando na rua, torcia no pensamento para que parassem para ajudá-la. Após 7 meses do início das agressões físicas e psicológicas, uma denúncia anônima para a Delegacia da Mulher, levou a Patrulha Família Segura até a casa em que Maria estava e conseguiu retirá-la para que ela denunciasse seu agressor. “Se eu não fizesse alguma coisa ou alguém fizesse por mim, eu não sabia do que ele seria capaz”, confessa.

Ela não sabe quem fez a denúncia, mas enfatiza sua gratidão ao denunciante. “Eu agradeço muito a quem denunciou o meu caso, sei que Deus irá recompensá-lo! Eu não imaginava que estavam me observando e percebendo tudo que eu estava sofrendo”.

Uma característica da Patrulha Família Segura é contar com um policial masculino para abordar o homem e uma policial feminina, que conversa separadamente com a possível vítima e essa estratégia dá resultados. “Se ele estivesse junto eu não iria contar a verdade, que sofria violência, porque eu era ameaçada. Eu não sabia o que ele iria fazer depois para mim. Mas deu tudo certo, Deus enviou anjos para me ajudar”, desabafa a vítima.

Maria e sua filha sofreram muito durante a permanência com o agressor. “Eu não conseguia denunciar porque não saía de casa, mas se eu pudesse eu iria denunciar! Eu precisava de um conselho, um empurrão para superar meu medo. A Patrulha Família Segura chegou na hora certa, eles conversaram e me apoiaram da forma que eu precisava. Eles foram muito importantes na minha história e fizeram um excelente trabalho”, argumenta.

Ela achava que conhecia seu ex-companheiro, mas só descobriu seu histórico criminoso quando o denunciou. “Se eu tivesse pensado antes, eu não teria me envolvido com um cara daquele jeito, mas eu também não ia adivinhar que ele fosse assim. Acho que não gostava dele, só estava carente e ainda me recuperando de um relacionamento anterior que foi conturbado”, conta.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O caso ainda é recente, Maria ainda está sob proteção de justiça e se recuperando do ocorrido. “Espero superar esse trauma logo! Hoje eu tenho medo de qualquer barulho, de sair na rua, levar minha filha na escola e não consigo dormir direito”, relata. Atualmente ela está morando com um casal de conhecidos e a filha em outra cidade, recebe apoio e cuidado deles, mas lamenta estar longe do outro filho e da mãe.

Maria confessa que ainda não tem ânimo para se arrumar, por exemplo, e não pensa em começar outro relacionamento. “Hoje tenho medo de me envolver com outra pessoa, porque agi muito na emoção. É uma experiência que levo para a minha vida, de não me envolver com as pessoas sem conhecê-las bem. Estou levando até Deus ajeitar as coisas, espero superar logo! Quero voltar à minha rotina logo, conseguir trabalhar, cuidar dos meus filhos e da minha mãe”, disse.

Buscando forças na família para superar seus traumas, ela lamenta: “Eu não soube o que era viver por 7 meses, hoje só Deus sabe o que estou sentindo por estar longe da minha mãe e do meu filho, por causa de uma pessoa que não deu o mínimo valor por mim. Ele tem que pagar pelo que fez!”.

Maria é grata por ela e sua família terem saído salvos. “Fico pensando que tantas mulheres tentaram sair de situações como essas, mas não conseguiram e acabaram perdendo a vida”, lamenta.

Em sua opinião, o maior empecilho que as mulheres enfrentam ao tentar denunciar é a ameaça e o medo, principalmente quando envolve filhos. “Isso causa um trauma tão grande na mulher que ela pode morrer ali, mas não denuncia. Não fomos feitas para apanhar, sofremos mais por medo!”, opina.

Maria conta que torce pelas mulheres que estão sofrendo violências e espera que elas consigam logo se livrar dos agressores e desabafa: “Não é certo uma mulher ficar sofrer ameaças, correndo risco de perder a vida por causa de um homem, de ciúmes e agressividade”.

“Denuncie! Eu sei que às vezes é difícil ... Eu passei por isso, mas não tinha como denunciar. As mulheres devem buscar ajuda o mais rápido possível, fale que você está recebendo ameaças, que está apanhando, conte para alguém para ser ajudada”, aconselha.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE 

Mais um caso

Já a Ana* foi vítima de violência doméstica em 2015 e precisou mudar de cidade para fugir do seu agressor. Após se separar do marido, ele invadiu a casa da ex-sogra e a arrastou pelo quarteirão dando chutes e socos, enquanto ameaçava a vida dos seus filhos. “Em nenhum momento tive dúvidas de não denunciar, eu sabia o que iria acontecer. A polícia o tirou de cima de mim”.

Ana comenta que ele dizia que a amava e durante o casamento não teve problemas. As ameaças e o terror psicológico começaram após a separação, pois o agressor mostrava sentimento de posse por ela.

Os vizinhos não defenderam Ana, apenas chamaram a polícia que flagrou o agressor no momento da agressão. O mesmo ficou preso por 3 dias e foi liberado após pagamento de fiança.

Após o ocorrido, Ana decidiu fugir, pois o ex-companheiro passou ameaçar sua vida e de seus filhos por ligações e mensagens. Saiu de sua cidade natal apenas com a roupa do corpo, ficou longe da família e passou dificuldades financeiras com os filhos. “Não podia deixar com parentes, pois o pai teria acesso e podia matá-los”, revela.

Os primeiros meses foram difíceis para Ana e os filhos por conta dos traumas. “Acho que não entrei em depressão, nem fiquei louca por causa dos meus filhos. Não podia ouvir um barulho, tinha muito medo, surtava, chorava e agarrava meus filhos. Até hoje durmo com eles, não gosto de ficar sozinha”.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

O filho mais velho, mesmo após tratamento psicológico, traz resquícios do ocorrido. “Eu lembro tudo que ele fez pra você, mudou toda nossa vida, tirou tudo que eu amo, não posso nem ver meus avós e tios por causa dele”, revelou para a mãe.

Ana precisou ser forte e levantar a cabeça. “Eu consegui superar os medos por conta dos meus filhos, eles não tinham ninguém, precisava protegê-los! Eles são tudo pra mim, eu precisava lutar, mesmo não tendo forças!”

Nem todos os dias são fáceis, mas Ana conta que se sente vitoriosa por tudo que já superou e conquistou. “Agora consigo trabalhar, sair e me sinto bem!”

O Programa Patrulha Família Segura foi crucial para sua segurança. “Eles são tudo para mim, são a família que Deus me deu! Eles me apoiaram no momento que mais precisei e ninguém podia me ajudar, são uns anjos em minha vida, fizeram toda a diferença”.

Os Policiais Militares do programa ajudaram Ana não só profissionalmente, mas também com orientação e assistência social. Comovidos com sua história, os policiais do Batalhão doaram móveis para sua casa nova, roupas e alimentos para ela e seus filhos. “São pessoas que nunca vi na vida me ajudaram em tudo, não só com roupa, comida, sapato, mas também com palavras, carinho, atenção e afeto. Não foram as do meu sangue, mas foram de pessoas que Deus preparou para o meu caminho. Só tenho a agradecer”.

Quase 4 anos após as agressões, Ana continua sob proteção e ainda vive em outra cidade para ficar longe de seu agressor, seu maior medo ainda é encontrá-lo. “Nunca mais tive contato com ele e nem quero, mas o mundo é pequeno, eu posso dar de cara com ele e, nesse momento, quero estar fortalecida e preparada para enfrentar, ouvir e falar”.

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE

 

A fé sustentou Ana nesses últimos anos e a ajudou superar o ocorrido. Atualmente se sente mais protegida, apesar de ficar angustiada às vezes, se sente muito mais forte. “Ainda não consigo me envolver com outra pessoa, eu evito por medo. O importante é que meus filhos estão grandes, fortes e sadios. Quero lutar por eles, pois sei que depois vão cuidar de mim”, revela.

Para os próximos anos, Ana revela seus desejos. “Se hoje estou bem, amanhã e depois vou estar melhor ainda! Espero ver a diferença nos meus filhos, desejo que esse mal que aconteceu com a gente não reflita neles amanhã”.

Na opinião da Ana, as mulheres tem medo de denunciar por conta da impunidade. “Parecia que ninguém conseguiria impedir meu agressor, ele foi preso, mas pagou fiança e foi solto após 3 dias. Tinha medo de que se ele soubesse onde eu estava, ir atrás de nós para nos matar”.

Ana destaca a violência sofrida. “É um ato de covardia, eu não tinha como me defender. Pra mim ele é um monstro. Por causa dele eu e meus filhos fomos humilhados e passamos por situações horríveis”, comenta.

Infelizmente, muitas mulheres passam por isso diariamente em suas casas e aceitam pelos motivos mais diversos, como dependência financeira, afetiva e medos, por exemplo. “A mulher que está com um homem violento está submissa a tudo! Um dia ameaça, o outro bate e no outro dia sabe se lá o que pode acontecer”, opina Ana, dizendo que as mulheres não devem perdoar. “Eles têm aquele arrependimento momentâneo, mas depois volta àquela fúria e ele quer fazer tudo de novo ... se tiver que fazer, faz”, opina.

Ana aconselha as mulheres que sofrem violência doméstica a denunciar! “Dê a volta por cima, busque ajuda, tenha fé que Deus manda pessoas certas para ajudar. Acredite no trabalho da polícia! Foque em se levantar, em transformar a sua vida! Tenha força e esperança de ter uma vida melhor. Denuncie!”.

Sua vida está seguindo e Ana se sente uma vencedora. “O passado não será esquecido, mas estou superando. O trauma e o medo passam. Tudo isso me mostrou mais força, que posso lutar, vencer e me reerguer. Eu passei pelo pior, mas hoje estou muito melhor. Tenho o mais importante que é a minha vida e a vida dos meus filhos”, revela a vítima.

 

*Ana é um nome fictício pra proteger a vítima.